Entrevista Exclusiva com Hibria
- segunda-feira, junho 6, 2011, 9:05
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Recém chegado de uma tour asiática , o Hibria volta a Porto Alegre com data marcada para lançar Blind Ride (seu terceiro álbum) no Opinião.
Em entrevista exclusiva ao RockBox, Iuri Sanson e Abel Camargo nos contaram um pouco sobre o novo álbum, a experiência no oriente, o novo show da banda e mais!
Foto: Ricardo Yamamoto
RockBox – Blind Ride traz afinações mais baixas, além de uma pequena alteração na formação da banda. O quanto vocês consideram o álbum diferente dos dois anteriores?
Abel Camargo – Ele é bem diferente. A afinação foi algo natural. O início disso tudo foi quando o Diego [Kasper, guitarrista] gravou uma música com a Distraught. Eles usavam afinação mais baixa, em drop [baixando um tom apenas na 6ª corda]. Ele nos mostrou os riffs e nós achamos do caralho. Aí começamos a compor em afinação mais baixa.
Já existia a idéia de fazer algo mais pesado. A gente usava meio tom abaixo e baixou mais meio. É natural pra gente fazer um som mais pesado. A gente ouve som mais pesado. Tipo thrash, death…
Iuri Sanson – A gente também já vinha ouvindo som mais pesado. Novas influências. Lamb of God, Soilwork…E a gente viu que nosso som tava pesado mas podia sentar mais a mão. Como rolou esse lance da participação do Diego com a Distraught e a gente já queria colocar um vocal mais agressivo acabou acontecendo a partir daí.
Quando apareceram composições nessa linha a gente viu que esse era o caminho. Acabou acontecendo naturalmente. A gente já queria algo mais pesado e tava faltando um empurrãozinho. Quando surgiu esse lance do Diego, a gente não quis perder a característica de composição do Hibria e mesmo assim soar mais pesado.
RockBox – E a aceitação de Blind Ride? Como está sendo?
Abel – Acho que o melhor termômetro pra isso são os shows. A gente fez cinco shows na Ásia, passando por China, Coréia e Japão. Na China (em Shangai) tocamos em um festival ao ar livre, para 10 mil pessoas. Tínhamos um tempo reduzido e perguntamos ao pessoal se o público de lá conhecia a banda. Nos disseram: “aqui na China vocês estão entrando no mercado agora”…
Iuri – Até porque o acesso deles à internet e bem restrito. Na China eles têm um “google” deles e um “youtube” deles. Facebook tu não consegue entrar.Twitter também não. Não tínhamos como postar nada lá da China. Não tem como burlar. A gente não tinha esperança de que as pessoas conhecessem nosso som.
Abel – Pensamos: “estamos num lugar onde vai começar agora nossa história”. Então tocamos SÓ Blind Ride, que tem essa batida mais forte e um som mais pegado. E foi espetacular!
Iuri – Inclusive, olhando os vídeos da câmera do Juan [manager], encontrei um que eu filmei enquanto cantava “Blinded By Faith”. Foi demais, só dava pra ver uma poeira subindo e a galera toda pulando! Do caralho!
Abel – O Blind Ride é um CD com coisas mais rápidas e mais pesadas. Acho que a gente conseguiu chegar em um equilíbrio de composição em que a gente consegue tocar mais solto no palco. Dá pra se sentir mais à vontade porque tecnicamente a gente não fica tão preso ao instrumento. Dá pra se movimentar mais, bangear mais.
Iuri – A gente pensa nas composições visando o ao vivo. E com o Blind Ride a gente tem a certeza que esse foi o melhor disco composto por nós porque nos dá mais liberdade pra fazer o show do jeito que a gente gosta: bangeando pra caralho e fazendo todo mundo participar. Isso é ótimo.
Sobre a aceitação a gente tem acompanhado o que a galera vem comentando em Orkut e outros sites de relacionamento apenas aquilo que eles ouviram do CD. Lá fora a gente já teve oportunidade de ver a reação da galera. Às vezes a gente via o público cantando de cabo a rabo as músicas do Blind Ride. Coisa que às vezes não se conseguia em relação aos outros dois álbuns por questão de velocidade ou altura da voz.

RockBox – Como foi o processo de gravação do Blind Ride? Sei que parte dele foi gravada em homestudio.
Abel – Em estúdio locado foram gravadas baterias e vozes. Baixo e guitarra gravamos em homestudio e fizemos reamping [além do som do instrumento se grava ainda um canal limpo].
RockBox – Mixagem e masterização foram feitas onde?
Abel – Isso foi muito importante pra sonoridade do Blind Ride. A gente queria alguém que não trabalhasse com “metal melódico”, “power metal”. Queríamos alguém que trabalhasse não só com som mais pesado, mas que fosse mais abrangente também. Mixasse Pop, Rock, Metal. Um cara com uma visão mais abrangente.
A gente pega álbuns muito parecidos às vezes. Bandas diferentes, mas a mixagem parecida. A gente queria algo diferente pro Blind Ride. Quem fez esse trabalho foi o William Putney, do Machine Shop, em Nova York.
Iuri – A gente queria algo fora do padrão.
Abel- …Uma mix mais “americana”.
Iuri – Teve também todo o processo da pré-produção. A gente gravou várias vezes baixo e guitarra até chegar ao produto final, pra enviar pra mixagem.
Mas com essa mix soa diferente. Parece que tá tudo pra fora. A voz, a caixa da bateria. Não fica tudo “enterrado”, com aquele monte de compressão.
Abel – É uma mix menos “europeia” – que é mais “molhada”. A mix americana é mais “seca” e “na cara”.
RockBox – A distribuição nos continentes está sendo feita por quem?
Abel – Na Ásia pela King Records, que é uma gravadora forte pra caralho no Japão. Aqui no Brasil estamos com a Voice. Estados Unidos pela Cleopatra e Europa não fechamos ainda.
RockBox – E a Spiritual Beast?
Abel – Não estamos mais.
Iuri – Surgiu a oportunidade de assinarmos com a King Records, que é uma gravadora maior.
Abel – Lá eles já tem uma mentalidade diferente. Tu lança o álbum e ele já vem com as datas da tour na capa, tem todo um plano pra apoiar a banda.
Iuri – E eles são a segunda maior gravadora do Japão. Inclusive nesse meio pop/rock eles são a maior. Agora estão começando a entrar com os dois pés na porta nesse mercado do peso. Pra nós está sendo ótimo. Estão trabalhando em cima do metal mesmo. E também é legal o lance do fã comprar o CD e já ter ali as datas, além das promoções em revistas…
RockBox – A banda está lançando um videoclip de “Shoot Me Down”. Por que a escolha desta música? Pode-se dizer que ela é um “single” do novo álbum?
Abel – Não. Na verdade a gente só escolheu ela pra abrir os trabalhos porque “Shoot Me Down” tinha uma temática legal pra idéia do vídeo, da performance ao vivo, mais crua e direta. Pra mostrar o lado do ao vivo, batendo cabeça.
Iuri – Quando a gente estava com a primeira música (Nonconforming Mind), a gente queria testar ela ao vivo. E se for pra dar a chance pra algum lugar, certamente é pra Porto Alegre. A gente tocou essa música no ano passado, no Drakkar, sabendo como é o público daqui, exigente pra caramba…E como a gente queria fazer um clip com uma música em drop C, ficou a dúvida entre a Nonconforming e a Shoot Me Down.
Mas como a Nonconforming já é privilegiada por ser a primeira do CD, logo depois da intro, então escolhemos a Shoot Me Down.
RockBox – E há possibilidade de outro vídeo?
Abel – Estamos estudando a possibilidade sim.
Iuri – Vamos fazer, mas não vamos falar qual música!!
(risos)
RockBox – A última música do álbum é um cover de ninguém menos do que Frank Sinatra. Como a banda viabilizou a gravação, em relação aos direitos? E quem fez essa escolha?
Iuri – Grava e passa a bola pra gravadora!!
(risos)
Abel – A ideia foi do Diego. Ele tinha ideias de gravar um cover. Começou a procurar, achou essa. Gostou da letra da música. Tinha a ver com
a história que a gente estava trabalhando. Gostou da melodia também.
E começou a trabalhar.
Uma coisa engraçada foi que ele começou a arranjar a música e fez todas as partes. Ele mesmo cantou.
Iuri – Ficou do caralho, cara!
Abel – A gente queria que ele gravasse os vocais. Mas acabou não rolando.
Iuri – Ele me mandou por e-mail. Perguntou: “O que tu acha dessa versão aqui?”. Eu perguntei de onde ele tinha tirado, que banda era. Não tinha reconhecido a voz dele. Ficou muito bom!
Aí eu perguntei porque ele mesmo não gravava. Ele me disse: “Demorei duas semanas pra gravar isso. Cada vez que eu cantava, perdia a voz”.
(risos)

RockBox – O retorno de vocês a Ásia foi logo após uma época bastante difícil para os japoneses. Que resquícios das tragédias vocês encontraram por lá?
Abel – Quando a gente chegou lá, eu entrei no quarto, notei algo. Depois entrei nos quartos dos caras, a mesma coisa. Os quadros tortos na parede. “Isso não é decoração”, eu pensei. O Eduardo chegou e disse “cara, isso é de terremoto”.
Iuri – Eu entrei no quarto e notei que tava torto. Uma angulação pequena, mas que se notava. Aí comentamos que só poderia ser do terremoto. Mas só aí pra nos ligarmos, porque andando na rua não se nota nada. É meio da cultura deles. Não tem uma pedra no chão, as ruas são limpas. Se vê mais o reflexo econômico do que físico.
RockBox – E o reflexo comportamental?
Iuri – Nos hotéis diziam pra racionar água, não demorar no banho, desligar a luz. Ar condicionado também. A gente chegou numa época que Tokyo (que era abastecida por Fukushima) estava tendo todo esse problema de energia. Mas eles já estão contornando o problema. Duas semanas antes de a gente chegar lá, tava tendo blackout. “De tal hora a tal hora vai faltar luz na tua cidade. Te vira”. Os caras tinham que se programar. Era foda.
E quando chegamos, passamos por um bairro cheio de eletrônicos. Mas tudo aceso.
Sem falar na Tokyo Tower. O Eduardo que é mais ligado em tecnologia notou que a ponta da torre tava um pouco torta e estava afetando sinais de TV e tal.
Mas pouca coisa. A gente nem teria reparado.
Abel – Mas tem terremoto direto. Tremores pequenos, mas tem. No dia que a gente estava lá, rolou um, mas só ficamos sabendo porque nos falaram.
RockBox – O que vocês viram, principalmente na China, de mais diferente e bizarro?
Abel – Bizarro é tu chegar na China, pra tomar café (que é quase um almoço, muita comida, um banquete!). E aí tu sente aquele cheiro encardido. Aí tu começa a olhar o rango. O rango te olha torto. Tu olha torto pro rango. Aí tu vai no pão, no ovo, no arroz, na massa…Aí tu tem que beber algo. O Eduardo pegou um copo de suco de laranja. O suco tava quente! Eu disse: “não vou tomar suco quente”…
Iuri – Quente de aquecido! Não era temperatura ambiente, fora do gelo.
(risos)
Abel – Tinha uma jarra com leite. Servi um quarto de copo. Tomei, não tava ruim. Beleza, voltei pra mesa. Aí o Eduardo olha pro meu copo e me pergunta: “Cara, tu te ligou de onde vem esse leite?”. Eu disse que não. Já me deu uns quinze tipos de medo. Ele falou: “Então, na próxima rodada, dá uma olhada ali do lado da mesa”.
Fui pra segunda rodada, passei a mesa, olhei…Um balde de lavar roupa! E o leite ali, borbulhando. Quentinho…Saindo fumaça. Num balde de lavar roupa!!
(risos)
Iuri – Shangai foi um capítulo à parte. Além de ser a nossa primeira visita, lá é um mix de tecnologia com antiguidade. Cada prédio tem uma iluminação específica, luzes que sobem e descem, é uma loucura. Mas com relação a higiene, é meio foda. Num restaurante, a mesa que tu senta é limpinha, mas no banheiro tu pode encontrar o chinelo do funcionário ali, patente mal lavada. Meio punk. Aí tu pensa: “Uma cultura que tá aí há muitos mil anos e estão firmes e fortes”.
(risos)
Iuri – A parte mais marcante foi essa. Contraste de tecnologia com…Falta de higiene.
(risos)

RockBox – O comportamento dos fãs é muito diferente daqui?
Iuri – Sim. Aqui no Brasil a característica da população é aquela mais quente, calorosa. A galera vem e te dá um abraço. Lá tu tem o contato com o fã, mas é um contato visual e verbal. No Japão a gente chegou em Osaka, pegou a van e no hotel já tinha uma galera esperando. Mas eles não vem e encostam em ti. Eles perguntam se tu te importaria em tirar uma foto, se tu aceitaria o presente que eles têm pra te dar.
RockBox – Isso aconteceu em Shangai também?
Iuri – Não, lá não.Só depois do show o pessoal veio falar com a gente, rolou uma sessão de autógrafos.
RockBox – E a comunicação lá? Como é a questão do inglês?
Iuri – Muito pouca gente fala. Inclusive o cara que nos acompanhava não era chinês. Era de Taiwan. Falava inglês muito bem. A equipe que nos acompanhou é que foi complicada. A gente precisava de um tradutor. O básico, tipo “sign here”, “photo”, isso o pessoal fala. Mas a parte técnica foi bem complicada.
RockBox – Não chega um momento em que bate um certo desespero? Uma banda em um país com uma língua completamente diferente, com essa barreira do inglês e sem entender absolutamente nada do que está escrito?
(risos)
Abel – É…Por exemplo: um dia, em Nagoya, nos separamos. Eu, o Diego e o Benhur fomos pra Ibanez e voltamos com fome. Saímos pra comer, eu e o Benhur. Não tinha nada que a gente pudesse ler. Não tinha uma foto pra ver que porra de comida tinha lá. A gente caminhou pra caralho e não achou nada em inglês! Numa loja de conveniência tinha um pãozinho com uma massa dentro. Coisa bizarra!
Iuri- A gente deu sorte. Eu, o Eduardo e o Juan saímos caminhando enquanto eles estavam na Ibanez e comemos em um restaurante que se chamava “Pasta de Cocô”. E foi um dos melhores rangos que a gente fez!
RockBox – Opa! Como é que se escrevia isso??
Iuri – PASTA DE COCÔ. Tá, não tinha acento. Agora não sei. Pasta de coco, de cocô…
(risos)
Iuri – Era um restaurante só de massas. Agora porque esse nome eu não sei. O cara que nos atendeu era o mesmo que atendia e cozinhava. Ele não falava nada de inglês. Apontava as imagens e sinalizava. A gente falava “big”, “small”, “pepper”. Quando vê o cara te traz um pratão enorme. Espetacular!
RockBox – Como foi o contato com a Base 2, que também trabalha como bandas como Sepultura e Angra?
Abel – A gente já tinha algum contato com o Juan, anteriormente à Base 02. Era um contato do Marco. Já tínhamos um relacionamento iniciado e foi meio que uma transição, na saída do Marco.
Iuri – E aí pintou a abertura do Metallica. Aí começamos a trocar umas idéias com a Monica Cavalera, que também faz parte da Base 02. Com esse show a gente começou a fazer contatos e o relacionamento começou a crescer até fecharmos contrato. O Juan tinha bastante interesse em trabalhar com a gente.
RockBox – Tour europeia, por enquanto não?
Abel – Por enquanto não, mas há planos para o ano que vem.

RockBox – O Abel, o Diego e o Benhur agora são endorsers da Ibanez. Como foi esta parceria?
Abel – Foi uma coisa legal pra caralho. A gente gravou DVDs pra Young Guitar. Um no Japão, em 2009 e outro aqui, que saiu em fevereiro. E nós gravamos com Ibanez. Já tínhamos Ibanez, curtimos a marca mesmo, há tempos. Somos muito fãs de Paul Gilbert, Steve Vai…E os caras da Ibanez viram o DVD e acharam legal. Acabamos “encontrando” com a Ibanez. Caminho natural. Eles viram que a gente gostava e usava espontaneamente então acabou rolando o apoio.
RockBox – Já faz um ano que o Benhur está no Hibria. Como foi a seleção dele?
Abel – Eu não sei qual é a imagem que as pessoas têm da gente, mas tentamos ser ao máximo uma banda reservada. Sem concursos pra escolher alguém. Se tem que resolver algo, é melhor sentar com a banda e resolver. A partir disso a gente pensou em possibilidades. Caras que pudessem tocar o que já foi composto e acrescentasse na banda. E que encarasse a coisa como um todo: ensaiar, compor, viajar…
Pensamos em alguns nomes e chegamos ao Benhur.
Iuri – E como o Abel falou, sobre a questão interna: a ÚLTIMA coisa que a gente pensou foi em abrir pra mandar material e fazer testes do tipo “você quer ser o baixista do Hibria?”.
Então a gente conhecia algumas pessoas e quando o Benhur chegou, no primeiro ensaio, a galera já se enturmou. O cara chegou, conversou, deu risada com a gente, tocou bem. Tudo isso conta. Foi super natural a escolha dele.
Abel – Ele já conhecia a banda e já curtia.
RockBox – Chamem a galera para o show do dia 13 de julho.
Iuri – Estamos no pique dos shows da Ásia ainda. Faz uma semana que chegamos. Então, agora que já estamos readaptados com o fuso, vamos começar a ensaiar de novo. Nos preparamos forte pra mostrar não só o novo trabalho mas o novo show do Hibria. Vamos dar continuidade a isso no show de Porto Alegre. E ainda vai ter um algo a mais!
A gente vai mostrar exatamente o mesmo show de Tokyo, no qual gravamos o DVD da banda, mais esse bônus!
Por: Murilo Bittencurt


